Por: Miguel CostaFoto: Blog do Crato
Determinação e Teimosia. Essas são duas das muitas palavras que definem a trajetória do cearense Antônio Rosemberg de Moura. Nascido em 1953, no município de Farias Brito-CE, ele tem uma grande bagagem profissional. Rosemberg Cariry, como hoje é conhecido foi jornalista, radialista, poeta, escritor, pesquisador de cultura popular, produtor e atualmente cineasta. Em 1986, o Brasil, principalmente o Ceará, começava a ver os resultados de uma longa trajetória voltada para o popular. Nesse ano, Cariry estreou no cinema com o documentário O Caldeirão de Santa Cruz no Deserto, recebendo elogios de várias partes do mundo, chegando até mesmo a ser premiado.
Morando em Fortaleza, funda a Cariry Produções, especializada na produção de filmes e edição de livros.
As marcas deixadas pelo tempo em seu rosto é fruto do trabalho inovador que ele vem atuando no cinema nacional. A sua educação foi um marco inicial para a formação desse personagem que vive em diversos imaginários. Filósofo por formação e cineasta por vocação, sua trajetória relaciona o profissionalismo com questões regionais, colaborando para a identidade cultural.
A criatividade de Rosemberg fez com que ele não seguisse a estética padrão de filmagens. Desta forma inovou ao filmar sem ensaios e tendo como set de filmagens, o cenário das multidões das romarias, ou melhor, colocando atores para encenarem diante de um cenário não montado e sim figurado naturalmente e acima de tudo composto por pessoas originárias da cultura e da crença popular, por exemplo, Cine Tapúia, com cenas gravadas na Romaria de Canindé, em 2006.
Com o intuito de manter a cultura nordestina viva, o cineasta tem como foco os saberes e as adversidades do povo nordestino. Desta forma o cineasta quebra o paradigma de que as produções cinematográficas do nordeste não passam de uma imagem “preta e branca”, colorindo com qualidade as suas produções. Mostrando que é possível produzir bons filmes fora do eixo Rio-São Paulo. Com o seu diferencial: a valorização dos modos culturais do povo nordestino, em especial o do Ceará.
Miquéias_ Você disse no seu livro “Trinta anos de cinema” que o primeiro pecado que você cometeu foi contra a autoridade do seu pai quando tirou dinheiro de sua bodega para compra uma maçã. Eu quero saber se seu pai era muito autoritário?
Rosemberg_ Não, não, não. Papai pelo contrário, ele era uma pessoa muito doce, muito afável, e que sempre nos protegeu de uma forma muito carinhosa.
Miquéias_ Ela parecia com os pais de seus amigos?
Rosemberg_ Não. Eu acho que papai era – claro cada pai é especial para o seu filho – mas ele era uma pessoa muito especial por que sempre se destacou dentro da comunidade como um homem muito pacato, cordeiro, muito amigo das pessoas. Em toda a trajetória da vida de papai nunca o vi, por exemplo, falar mal de ninguém, nem ninguém falar mal dele. Ele era uma pessoa que não teve rancores, nem raivas pra guardar, não travou lutas contra ninguém. Foi uma vida onde o cuidado com o outro fazia parte da sua existência.
Miguel_ E na trajetória da sua carreira cinematográfica o apoio da família foi bem presente?
Rosemberg_ No sentido de que o meu pai sempre se preocupou muito com minha educação, tanto no comprar os primeiros livros, como no me colocar em seminários. Se as forças econômicas, no dado momento, não permitiam que ele me colocasse no melhor colégio da cidade, que custava caro, no entanto ele sabia que os seminários podiam me oferecer um estudo bastante satisfatório. Então ele me internou num seminário, depois me internou em outro seminário, e isso terminou sendo muito importante para mim por que eu entrei em contato também com toda uma cultura clássica, com todo o aspecto da teologia e da filosofia que terminou sendo importante para mim. Ele chegou a me mandar pra fora do estado pra estudar. No início da década de 70 eu fui para Ouro Preto, em Minas gerais, e passei uma boa temporada lá, e foi ai que se abriram horizontes, eu entrei em contato com outras culturas. Em Ouro Preto todo ano tinha o festival de inverno, que era um festival que reunia o que de mais importante tinha no país. Nessa época, também, eu entro em contato com os movimentos artísticos de vanguarda, tomo conhecimento do movimento musical mineiro, e tantas outras coisas que vivi aos 20 anos. Aquilo pra mim teve uma importância muito grande. Foi na época em que eu comecei a fazer curso de desenho, curso “disso-daquilo-outro”...
Miguel_ Sempre com o apoio da família...
Rosemberg_ Da família. Li muitos livros. Houve também uma redescoberta de grandes poetas brasileiros como Drummond, Manoel Bandeira, a literatura de Guimarães Rosa. Antes eu já tinha lido muito uma literatura de 30, Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, José Lins do Rego, Ariano Suassuna, esse povo todo e tal, mas lá eu entrei em contato com outras leituras, com outras literaturas, com o movimento modernista de 22 – que eu fiz uma releitura – e foi muito importante esse período que eu vivi. Eu agradeço muito a meu pai por ter me dado essa oportunidade.
Miquéias_ Ele investiu muito nos seus estudos. Você acha que era isso que ele esperava de você, um cineasta?
Rosemberg_ Na verdade meu pai nunca me cobrou uma profissão “X” (enfático). Eu acho que mesmo quando ele me colocou num seminário, ele me colocou muito mais pela a oportunidade que eu teria de ter acesso a um estudo de bom nível do que eu seguir uma carreira religiosa. Quando eu fui pra Ouro Preto eu fui pensando na possibilidade de fazer engenharia de minas, ou metalurgia, mas esse contato com as artes foi muito importante e eu já levava também toda uma influência do Cariri cearense. Meu pai era amigo de muitos artistas populares. Patativa do Assaré, cego Heleno e muitos outros, por exemplo, eu conheci através do meu pai. Meu pai tinha amizade com esses artistas populares. Ele freqüentava a bodega dele (Patativa do Assaré). Ele era uma pessoa, um pequeno comerciante, que sempre trabalhou muito e com muita dificuldade, mas que via no estudo a grande possibilidade de crescimento dos filhos, de compreensão do mundo, de conhecimento pessoal, espiritual. Ele investia muito nisso. É tanto que todas as minhas irmãs vieram para Fortaleza, se formaram, e a gente sempre dedicou, durante toda a vida, um carinho muito especial a esse pai como reconhecimento a esse cuidado que ele teve com a gente.
Miguel_ E no seu tempo de escola, o que você já projetava em volta da cultura e do cinema? Você já pretendia seguir essa carreira de cinema?
Rosemberg_ Não. Eu acho que essa vontade de fazer cinema acontece já no final da década de 60 à início da década de 70, quando eu começo a ver filmes, freqüentar cines clubes. Na época, surgem também, as pequenas câmeras super8. Em 1975 eu faço meu primeiro filme já em super8. Eu não tinha acesso a câmeras, mas eu tinha amigos ou conhecidos da classe média alta que já tinham viajado para aos Estados Unidos e o pai tinha trazido uma câmera super8. É claro que naquela época tudo era muito mais difícil. Hoje você tem a comunicação pela internet onde você baixa manuais de português, manuais de linguagens, baixa qualquer coisa. Hoje você tem um acesso direto. Naquela época, não. A gente arranjava um amigo, que emprestava um livro. Então isso começou como um sonho. Depois foi ficando uma coisa mais importante. Escrevi muita poesia, fiz parte de movimentos culturais e artísticos, editei uma revista chamada Nação Cariri, editei outra revista chamada Por Exemplo, participei do grupo de literatura Siri-ará, então sempre estive em atividades muito grandes nos movimentos artísticos da minha época, tanto no pessoal como no coletivo. Notadamente na década de 70.
Elton_ Quanto aos seus filhos, o Petrus é cineasta e a Mayra, atriz. Como o senhor avalia o movimento dos seus filhos com o cinema?
Rosemberg_ Olha, eu acho isso um processo natural. Essas crianças foram praticamente criadas dentro do set de filmagens (lugar onde se constroem cenários de filmes), desde pequenos. Na verdade a Mayra é psicóloga, que atualmente tem seu consultório e trabalha em clínicas e o Petrus se estabeleceu como cineasta, já fez seu primeiro longa-metragem que teve muita importância no cenário nacional e internacional (O Grão, vencedor do 19º Festival de cinema de Viña del Mar). A minha filha mais nova, Bárbara, é que está seguindo nessa carreira, ela está fazendo um curso de Audiovisual em Novas Mídias, na Universidade de Fortaleza (Unifor). Terminou agora o seu primeiro filme, ganhou um prêmio de curta-metragem. Acho isso legal, porém uma área difícil. Mas já que é a vontade deles.
Miquéias_ E a sua esposa, fale sobre ela.
Rosemberg_ Bom, a minha primeira esposa, a mãe dos meus filhos, era atriz, produtora e também esteve ao meu lado. Nós nos separamos em 1994, por aí. Hoje ela mantém uma aproximação com os filhos.
Natália_ O senhor é filósofo por formação e cineasta por vocação. Então queria que o senhor falasse do seu interesse pela filosofia e como ela ajuda na sua atuação?
Rosemberg_ Bom! O meu primeiro contato com a filosofia foi no seminário. Estudei no Seminário de São Francisco, que era dos frades franciscanos e depois no Seminário dos padres alemães, no Crato. E quando eu vim para Fortaleza, resolvi fazer filosofia por uma questão de afinidade, devido a esses primeiros contatos que eu tive. A filosofia me ajudou muito em longos anos. Passei a ter uma visão crítica e um alargamento crítico da visão de mundo. Ela me deu uma contribuição marcante. Para quem faz cinema, não basta ter vocação, tem que ter história do pensamento humano, saber um pouco de psicologia, um máximo de conhecimento sobre o homem, sobre a vida. Então acredito que a filosofia me ajudou muito.
Miguel_ Fazer cinema no Brasil é complicado. Como foi para o senhor engatar essa trajetória em meios às dificuldades? O senhor teve o apoio do governo, através de leis de incentivo a Cultura?
Rosemberg_ Não! Quando começamos foi praticamente um trabalho de mutirão, as pessoas se reuniam, cada um dava a sua pequena contribuição e assim fazíamos os filmes. Pouco a pouco esses filmes começaram a ter um reconhecimento e começamos a ganhar prêmios fora do Estado e começamos a fazer contatos nacionais e internacionais. Então a partir desse momento se alargam as possibilidades e começamos a ter acesso ao fundo de incentivo às produções cinematográficas, tanto nacionais como de algumas instituições internacionais. Foi um longo processo até chegarmos a essa possibilidade.
Miguel_ Ao longo desse processo, o senhor pensou em desistir?
Rosemberg_ Não, eu sempre fui muito teimoso!
Elton_ Falando de teimosia. O jornalista Assis Ângelo, define o senhor, entre tantas outras coisas, como uma pessoa teimosa. O senhor acredita que teimosia é uma característica dos cearenses?
Rosemberg_ Eu acho que o cearense tem essa característica. Está sempre procurando alguma coisa que o realize. É tanto que tem essa fama de “Aves de Arribação”, que vai e descobre outros mundos e busca construir coisas novas nesse novo mundo. Eu acho que é uma característica do povo, não é? E, com certeza, como um filho da cultura, herdei essa característica.
Miquéias_ Falando um pouco de cearensidade. O senhor acha que Fortaleza é uma cidade “cearense”, com essência nordestina?
Rosemberg_ Rapaz eu tenho uma relação difícil com Fortaleza, porque é uma cidade que eu não consigo percebê-la. No final do século XIX, isso aqui era um areal sem nenhuma grande importância. Enquanto no interior você tinha as riquezas culturais. Centros urbanos e culturais importantes, como Crato, Icó e Sobral, tinham muito mais importância intelectualmente, politicamente e economicamente, do que Fortaleza. Fortaleza era uma espécie de povoado. Parece-me que ela foi uma cidade que sempre esteve voltada de costas para o sertão a “espera das caravelas”, “mirando Miami”, sabe? O certo é que é uma cidade sem identidade, sem saudades e sem memória. Fortaleza é uma cidade morna, não tem formas, nem alma ou pelo menos ninguém percebe o que seria, vamos dizer assim, a alma da nossa cidade, não é? Ela se transforma com uma velocidade tão grande que nos montes já nascem escombros, não dá tempo nem pra criar memória. E assim Fortaleza é uma cidade sem memória. Ela tá ficando cada vez mais feia e assombrosa. Eu digo isso porque é uma cidade na qual eu vivo, mas gostaria de vê-la diferente. É uma coisa muito diferente de uma cidade como Olinda (Pernambuco), São Luís do Maranhão, que ainda guardam características muito fortes, eu diria uma alma, um espírito.
Elton_ No artigo publicado no jornal O Povo intitulado “Porque não me orgulho”, o senhor fala do não orgulho de ser cearense. Já que o senhor expõe diversos fatores para não ter orgulho, porque “Cariry” no seu nome?
Rosemberg_ Na verdade eu acho que foi um equívoco de leitura, porque em momento algum eu falo que não me orgulho de ser cearense. Na verdade o que eu coloco é: porque se orgulharia de ser um pernambucano, e não cearense? Por qualquer coisa. Eu não vejo qual é o motivo desse orgulho. Isso aí vai construir uma barreira. Eu me orgulho de ser branco, de ser negro, eu me orgulho de ser cearense e carirense? Também não. Nós vivemos no Estado do Ceará e achamos que temos uma cultura importante, mas a nossa cultura não é maior e nem melhor de que a cultura de “senhor Ninguém”. É nesse aspecto que isso gera ufanismo, criando ou prevalecendo uma frase de marketing, tá me entendendo? Porque “me orgulho” é uma frase perigosa, não é?
Miquéias_ Nesse mesmo artigo que ele (Elton) acabou de citar, o senhor disse que o cearense não tem memória, ou tem uma memória simplória? O senhor tem medo da que sua obra e a sua pessoa sejam esquecidos?
Rosemberg_ Não! Numa leitura mais filosófica, ela é descabida em permanência, ou seja, tudo passa. A preservação da memória, na terceira geração você praticamente não lembram. Quem eram seus bisavôs, seus tataravós. Como eles viveram? Como eles chegaram? Então é um processo natural. Eu acho que a questão não é essa Quando eu falo a questão da memória no Ceara, é uma questão de preservação de uma memória cultural, uma memória histórica, arquitetônica. Você está me entendendo? Não seria uma preocupação pessoal, com sua própria memória, mas é uma memória coletiva da qual estou falando.
Natália_ Esse seria um dos motivos para o senhor fazer a produção do cinema voltada para a cultura regional?
Rosemberg_ Acho que uma das minhas preocupações é essa. Acho que o meu cinema tem muito dessa preocupação de preservação de uma memória coletiva, da expressão da cultura de um povo – que na verdade se faz da mescla de muitas culturas com a contribuição de muitos povos.
Miguel_ No projeto “Cante lá, Que Eu Canto Cá” o Senhor fez uma homenagem ao poeta Patativa do Assaré. O que o poeta representa na sua história pessoal?
Rosemberg_ Olha, com o Patativa eu tinha uma relação muito especial de proximidade e de compadrio. Eu conheci o Patativa desde o inicio da década de 60. Patativa praticamente me inicia na literatura, me sugere alguns livros. Por conta da amizade dele com o meu pai, ele ficou como se fosse uma espécie de pai espiritual. Sempre tive por Patativa uma grande dedicação e um amor muito grande.
Miguel_ Esse foi o motivo do qual o senhor o homenageou?
Rosemberg_ Não. Independe de sermos compadre, me parece que ele é um dos grandes poetas do Brasil e que merece homenagens. A minha foi uma entre as milhares de outras.
Elton_ Em seus filmes é possível encontrar histórias parecidas com as suas, desde a infância até o profissionalismo?
Rosemberg_ Acho que sim. Eu acho que todo filme termina trazendo alguma coisa das nossas vidas, dos nossos sonhos.
Miquéias_ Dizem que adaptar uma obra literária para o cinema é tão difícil que alguns consideram até uma maldição. O senhor já fez adaptação de uma lenda, “Lua Cambará”, já fez em “Cine Tapuia” uma analogia à obra de José de Alencar, Iracema. O senhor pretende fazer alguma adaptação de uma obra literária? E quais suas dificuldades?
Rosemberg_ Não, não. Pretendo não. Mas eu acho que há adaptações maravilhosas. “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos é uma das obras-primas do cinema mundial, e é uma adaptação de Graciliano Ramos, só pra te citar um exemplo. Então, nem sempre é uma maldição, muitas vezes quando dá certo...
Miquéias_ Mas, por exemplo, “O Guarani” já teve várias...
Rosemberg_ É, mas você cita O Guarani, cita um, ou outro, mas não é regra, têm muitas...
Miquéias_ Na maioria...
Rosemberg_ É, mas não é regra. Há adaptações que dão certo, desde que não sejam adaptações ao pé da letra, porque cinema é uma coisa, literatura é outra. Por exemplo, quando você fala de José de Alencar, apenas eu faço uma referência ao mito fundador de Iracema. Eu nem guardo a mesma história, nem a dramaturgia, nem a mesma narrativa, nada. É um espírito. O filme é totalmente um mito e se passa em 2008: é um vendedor de DVDs e CDs piratas, é um cego que passa filmes, não têm índios ou os índios que tem são os nossos índios que se reinventam , em busca de identidade. É outra coisa. Na verdade é um filme que se pergunta mais sobre a nossa origem indígena, sobre essa questão de ser caboclo. A vergonha que nós temos nisso, de não assumir essa mestiçagem.
Miguel_ Como o senhor avalia o conteúdo apresentado pelo filme Lisbela e o Prisioneiro que retratou o sertão nordestino, acha que tem traços parecidos com as suas obras?
Rosemberg_ Não. Eu acho que o Guel Arraes ( Diretor do filme Lisbela e o Prisioneiro) tem um olhar muito especial sobre o nordeste, e muito competente no que faz. Da mesma forma como Ariano Suassuna também tem, um olhar muito especial sobre o nordeste...
Miguel_ Ele tratou bem a cultura Regional, do mesmo jeito que senhor trata...
Rosemberg_ É, mas são diferentes, são modelos de produção diferentes, formas diferenciadas, estética diferenciada.
Miguel_ Qual a sua estética?
Rosemberg_ Por exemplo, um filme como o Cine Tapuia é uma ficção que se insere no real. Nós chegávamos numa romaria em Canindé, colocávamos os atores dentro daquela realidade e filmamos uma ficção. Um Filme de ficção dentro da realidade, é totalmente diferente do modelo de ficção do Guel Arraes. São ensaios e etc. É uma outra coisa, e a tradução é diferente. Embora trabalhemos com temáticas muito próximas.
André_ Quanto aos seus projetos atuais, o senhor tem algum em andamento?
Rosemberg_ Tenho alguns. Estou querendo fazer um filme chamado “O alto do Lampião no além”, a partir da peça teatral do professor Cândido do Piauí e do cordel “A chegada do Lampião ao Inferno”. É uma farsa, que tem muito dos altos e da literatura picaresca, medieval, da literatura de cordel. Estou trabalhando atualmente neste projeto.
Miguel_ Segundo o senhor, o cinema brasileiro possui uma trindade, Humberto Mauro com seu lirismo interiorano, é o pai, Glauber Rocha com seu sertão barroco e violento é o filho, Nelson Perreira de todos os Santos. Como o senhor se classifica no meio cinematográfico no Brasil?
Rosemberg_ Veja bem. Eu sou um diretor que, por conta do modelo de produção, por conta do fato de viver no Ceará, terminou adquirindo características muito próprias. Eu participo do grande cinema brasileiro, mas eu não sou o grande cinema brasileiro, eu não fui pro Sudeste, não fui pro Rio, pra São Paulo, mas percorri o mundo, por muitos países e...
Miguel_ Mantendo a autenticidade da cultura?
Rosemberg_ Eu não diria autenticidade, porque eu não sei o que seria autenticidade, originalidade. O que seria? Eu não sei! Tudo é uma construção, uma busca. Diria que, pelo menos vivemos em uma terra, imerso de alguma forma nesse caldo cultural.
Miquéias_ Suas obras seguem uma espécie de tese, antítese e síntese? Pois em "Corisco e Dadá" a mulher é submissa e o homem um aventureiro desbravado. Já em "Lua Cambará" o homem é um pouco mais misterioso, contemplativo, enquanto a mulher é entregue aos desejos e cheia de rancor e ódio. Você pretende fazer alguma síntese desses dois personagens?
Rosemberg_ Quando vou fazer um filme tenho todo um pensar sobre aquela história, e eu diria mesmo: existe uma tese. Cada filme responde a determinados tipos de perguntas que perguntas filosóficas, especiais ou históricas. E é claro que isso termina contribuindo muito na elaboração dos personagens e do argumento dos filmes, na dramaturgia desses filmes. Na verdade cada homem tem um pouco de mulher, da alma feminina dentro de si, assim como a mulher também tem um pouco da alma masculina dentro de si. Em Corisco e Dadá, a estrutura do filme é de uma tragédia. Corisco é um homem condenado por Deus a lavar os pecados do mundo com sangue, com a violência, e ele se cansa daquilo, porque ele em só cumprir a vontade de Deus, não se afirma como homem. Eu acho que Adão e Eva, afirmaram-se como humanos no dia em que comeram a maça e a partir disso teve consciência da sua nudez e de si mesmos. Então Corisco chega num momento em que rompe com Deus, na morte do terceiro filho. Dada, como mulher, é o elemento que o humaniza. É tanto que aquela menina frágil vai crescendo, crescendo. No final do processo, de decadência, quem cresceu foi Dadá. E termina, inclusive, assumindo a luta no Nordeste. O cangaço no nordeste termina pelas mãos de uma mulher: Dadá. Em “Cambará” eu mostro exatamente o oposto, uma mulher tomada pela alma do macho. Nós vivemos em uma sociedade profundamente machista. A sociedade sertaneja é violenta e machista e muitas vezes as mulheres tomam pra si esse papel dos homens para se impor dentro da sociedade, isso, muitas vezes, com o sacrifício da sua alma mais profunda e transformadora, que seria da alma feminina, no sentindo criativo e imaginoso.
André_ O senhor falou da influência picaresca em seu novo trabalho. Quais autores ou obras da literatura picaresca o senhor poderia citar como parte dessa influência?
Rosemberg_ Rapaz eu li o Lazarillo de Tormes e estes que chegam através da literatura popular como: Cão de Fogo, João Grilo, Pedro Malasarte. Personagens que são da literatura popular. Li cordéis, contos, que são maravilhas populares.
Natália_ E as referências, aqui no ceará, na poesia, na literatura, ainda vivas?
Rosemberg_ São muitas. O Zé Alcides Pinto, grande Alcides, Moreira Campo, Francisco Carvalho, um dos grandes poetas brasileiros, Carlos Henrique, o Correia Lima, Oswaldo Barroso. Ah, são muitos.
Miguel_ Agora a gente sai um pouco do Rosemberg cineasta e vamos para o seu envolvimento na política. Como se deu esse processo?
Rosemberg_ Isso é natural, nos fazíamos movimentos artísticos. Desses movimentos nos começamos a participar em meados da década de 70, época da ditadura. Ainda no final da década de 70 se começou toda uma agitação social e política no país que buscava a redemocratização do país e naturalmente dentro dessas inquietações a juventude respondia, digamos, aos chamados do seu tempo, se engajava nas lutas, participava das Diretas já! Participava do movimento estudantil, diretório – aquela coisa toda da época – que foi muito bom.
Elton_ Na época em que o senhor era secretário de cultura da cidade do Crato, o senhor implantou o projeto de revitalização de favelas através da cultura e das artes populares. O senhor acredita que, de certa forma, tem alguma dívida para com o estado?
Rosemberg_ Eu acho que é preciso você pensar na a arte e na cultura como uma coisa ampla e inserida no contexto de transformação. O que nos queríamos com o “rabo da gata” que era um centro populacional degradado, o centro da cidade em condições sociais muito difíceis. A gente achou que caberia a primeira coisa era reconhecer aquele tipo de arquitetura, ruazinha subindo ladeira, pequenos jardins nas laterais das casas, como uma manifestação legitima da cultura popular. No primeiro momento fizemos todo um trabalho de mutirão, de saneamento, depois o melhoramento dessa arquitetura. Nós não reconstruímos as casa como as casas populares, mas nos desenhos das fachadas, nas cores, nas criações dos jardins e fizemos uma coisa que a própria população começou a participar disso. Criamos biblioteca, uma rádio comunitária. Era muito generoso assim o projeto inicialmente. Pensávamos na criação de uma fábrica de brinquedos populares. O Rabo da Gata virou um selo para uma associação de artesão. Foi uma forma de envolver aquela comunidade e transformá-la, onde a cultura teria seu papel muito importante dentro desse processo. Foi uma experiência na verdade, que se realizou em parte.
Miquéias_ Como o senhor ver hoje a iniciativa do Governo estadual e da prefeitura com relação à cultura, o senhor acha que melhorou em relação a década passada?
Rosemberg_ Eu não posso te falar isso rapaz, o que eu te digo é o que sempre achei, eu não estou afirmando que se investe muito pouco em cultura, eu acho é que deveria ser investido pelo menos dez por cento do orçamento da nação, e de cada Estado, na cultura. Acho que o capital mais precioso que se tem é a alma humana. E isso se faz junto a um processo de desenvolvimento que caberia também no desenvolvimento econômico. Então preciso compreender a cultura como um motor de grande transformação social e econômico. A cultura, na verdade, é locomotiva e não pode ir a reboque.
Miguel_ Com os filmes internacionais o regionalismo vem perdendo espaço. O senhor concorda com isso?
Rosemberg_ Não. Na verdade eu acho que com o processo de globalização e até é perigoso isso, mas há cada vez mais uma busca de identidade, de pertencimento a determinado grupos de pensamento a determinados grupos universitários, é tanto que o nacionalismo vem surgindo de uma forma até perigosa, eu acho que tudo isso vem uma resposta muito poderosa. E hoje no mundo tem surgindo cinemas nacionais muito importantes cinema da Europa, cinema de alguns países da Ásia, cinema iraniano, ou seja, isso é uma resposta muito positiva, digamos assim, a essa hegemonia da indústria áudio visual norte-americana que domina o mercado cinematográfico mundial.
Miguel_ Você acha que hoje, como se propaga, o cinema Brasileiro está vivendo o seu melhor momento?
Rosemberg_ Não. Eu acho que ele está lutando, para conquistar o espaço, e que é muito difícil essa luta.
Miquéias_ Mas, comparando com outros momentos.
Rosemberg_ De que época? Você tem que se situar. O Brasil viveu ciclos, entende?
Miquéias_ O cinema novo.
Rosemberg_ Não. O cinema novo foi um cinema de muito prestigio nacional e internacional. O cinema de hoje é um cinema que busca uma ocupação no mercado é um outro tipo, com outras preocupações. Não tem as mesmas preocupações que tinha o da década de 60, seja na estética, ou na preocupação política. É um outro tipo de cinema. Acho que é isso mesmo que se faz no Brasil, um cinema que busca uma ocupação no mercado. Existem alguns diretores que resistem a essa fórmula, do cinema como mercadoria, que fazem um cinema de artes, mais autoral, mais radical.
Miquéias_ Você acha que o mercado censura as obras cinematográficas brasileiras?
Rosemberg_ A questão não é a censura. A questão é quem tem os meios de produção e os de distribuição. A distribuição do cinema brasileira está nas mãos de grandes grupos econômico que estão ligados também a interesses de outros grandes grupos transnacionais, entendeu? O cinema brasileiro, dentro disso tudo, participa de uma parcela ínfima desse mercado, por volta, apenas, de 10% a 15% do mercado interno. E isso graças à lei que reveza e diz “tantos filmes nacionais por ano e tantos internacionais”. Mesmo assim é difícil. O cinema brasileiro chega com pouco recurso, chega com poucas cópias, com pouco dinheiro pro lançamento pra publicidade. Já maioria dos filmes norte-americanos, quando aqui chegam já chegam coberto pela mídia nacional e internacional desde quando estão filmando. Você já sabe qual atriz foi escolhida, se brigaram, se não brigaram, quem se apaixonou por quem...
Miquéias_ Até antes de ir para o cinema já tem o DVD pirata à venda (comenta).
Rosemberg_ É. Já tem tudo. Principalmente a mídia e a fofoca.
Miquéias_ Você é cineasta, poeta. Dizem que os artistas são um pouco temperamentais. Você se considera uma pessoa complexa?
Rosemberg_ Complexa? Não, não aparento. No cotidiano da vida, com os meus netos, meus filhos, com as pessoas, nas romarias, nas festas populares, sou da forma mais normal possível. Questões de angustia existencial, preocupações filosóficas, são as que todos nos temos diante da própria fragilidade humana, das questões do dia a dia, pela própria vida, pelo desafio da vida.
Elton_ O senhor gostaria de mencionar mais alguma coisa que nós não exploramos?
Rosemberg_ Não. Apenas dar os parabéns à Faculdade de vocês, por esse trabalho. Eu acho que uma entrevista como essa termina sendo também, como uma espécie de dialogo, que você começa a estabelecer fora do território da faculdade. É bom saber das outras pessoas. Conhecer sobre os poetas, sobre os escritores, sobre os cineastas. Isso de certa forma vai alargando o conhecimento de vocês e vai dando também para vocês instrumentos de conhecimento da cultura do Estado, de uma forma mais ampla. Eu fico contente em ter conversado com vocês.
Entrevista feita pelos alunos do curso de jornalismo da Faculdade 7 de Setembro.