terça-feira, 27 de abril de 2010

Jornalistas e servidores do Judiciário cearense comemoram a saída de Gilmar Mendes da presidência do STF



Uma manifestação em comemoração pela a saída do ministro Gilmar Mendes da presidência do Supremo Tribunal Federal (STF), foi realizada pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce), na tarde de sexta-feira, 23 de abril. O manifesto aconteceu na rampa de entrada do Fórum Clóvis Beviláqua no bairro Edson Queiroz, em Fortaleza-CE e reuniu 200 pessoas. Os manifestantes do movimento "Gilmar Mendes, já vai tarde!" se uniram aos servidores do Tribunal de Justiça do Ceará (TJ-CE) que estão em greve pela implantação do Plano de Cargos Carreiras e Vencimentos (PCCV). Com palavras de ordens, faixas,panfletos e apitos os manifestantes comemoraram a saída de Gilmar Mendes, autor do Recurso Extraordinário 511961, que derrubou a obrigatoriedade do diploma para o exercicío do jornalismo no Brasil, em junho de 2009. O diploma de jornalismo era obrigatório a 40 anos.
Gilmar Mendes deixou a presidência do STF na tarde de sexta-feira, 23 de abril. Segundo a presidente do Sindjorce Déborah Lima, a saída do ministro é o fim do sofrimento da classe trabalhadora, já que Gilmar Mendes só defendia os ínteresses dos patrões. No final do ato comemorativo, os servidores do TJ-CE queimaram cópias do Plano de Cargos e Carreiras enviado para a Assembléia Legislativa do Ceará, pelo Desembargador do Fórum, Ernani Barreira. Já os estudantes e jornalistas aproveitaram a oportunidade e queimaram as fotos do ex-presidente do STF, com as palavras de ordem " Fora Gilmar Mendes e leva o Ernani (Barreira)"
As manifestações aconteceram em diversas regiões do país. Em Pernambuco aconteceu paralela ao XIII Encontro de Professores de Jornalismo, na Bahia nas principais ruas de Salvador e em Brasília em frente ao STF.

Por_ Miguel Anderson Costa

Foto_ Miguel Anderson Costa

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Design Gráfico, décimo curso da FA7, é lançado com exposição de Rico Lins

Por Miguel Anderson, da Agência de Notícias Fato

Foi lançado na terça-feira, 20 de abril, o 10° curso de graduação da Faculdade 7 de Setembro (FA7). Trata-se do curso de Design Gráfico, graduação tecnológica, com duração de dois anos (1600h/a). O evento de lançamento aconteceu no auditório do 2° andar da FA7 e contou com a presença do Diretor Geral da FA7, Dr. Ednilton Soárez, do Diretor Acadêmico, Dr. Ednilo Soárez, da coordenadora do curso de Design, Juliana Lotif, do artista gráfico Rico Lins, além da comunidade acadêmica e de convidados.Somado ao lançamento do curso de Design da FA7, foi aberta para visitação a exposição, assinada por Rico Lins, "Uma gráfica de fronteira", que ficará em cartaz na Galeria de Arte Vicente Leite (4° andar da FA7) até 21 de maio.Segundo a coordenadora do novo curso, Juliana Lotif, o curso veio para atender as demandas do mercado gráfico cearense e mais uma vez a FA7 formará os melhores profissionais para atender esse mercado. Para ela, o maior desafio do curso será "conseguir unir a teoria, prática e a criatividade para atender as necessidades e expectativas dos clientes".Já o artista gráfico Rico Lins falou sobre as suas experiências no mundo gráfico e abriu a exposição na galeria de arte da FA7. Ele definiu a exposição "Uma gráfica de fronteiras" como didática e que veio para fascinar os futuros profissionais. "Desejo sorte e muita criatividade para este curso que a FA7 está lançando, e fico muito feliz por estar colaborando com esse lançamento", concluiu Rico.As inscrições para o vestibular, que será realizado no dia 29 de maio, estão abertas no site da FA7 até o dia 27 de maio. Mais informações, podem ser obtidas pelo telefone 4006 7600.

Ato "Gilmar Mendes, já vai tarde!" é nesta sexta, no Fórum Clóvis Beviláqua


Nesta sexta-feira, 23 de abril, o ministro Gilmar Mendes deixa a Presidência do STF. A FENAJ, os Sindicatos de Jornalistas e o GT Coordenação Nacional da Campanha em Defesa da Profissão programam manifestações de protesto com o lema “Já vai tarde!” e convocam a categoria a participar de mais um dia nacional em defesa da profissão e do Jornalismo. Em Fortaleza, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce) realiza um ato público, às 13 horas, em frente ao Fórum Clóvis Beviláqua, localizado na Avenida Desembargador Floriano Benevides, nº 100, bairro Edson Queiroz. “Desde 2008, enquanto Gilmar esteve à frente do STF, uma série de decisões tomadas deixaram claro que critérios técnicos foram preteridos em função de outros, no mínimo escusos”, registra a nota distribuída pelo GT Coordenação Nacional da Campanha em Defesa da Profissão às entidades, profissionais, professores e estudantes que apóiam o movimento. “Sob sua gestão, o Supremo também aboliu a Lei de Imprensa, transformando o Brasil no único país do mundo sem regulação para o setor. E além de dar declarações que extrapolavam suas atribuições, libertar o banqueiro Daniel Dantas e criminalizar os movimentos sociais, o presidente do STF foi o principal responsável pela derrubada da exigência do diploma para o exercício do jornalismo, em julgamento realizado em 17 de junho de 2009”, completa o documento. Além do Sindjorce, vários sindicatos já anteciparam o que pretendem fazer para comemorar a saída de Mendes da presidência do STF. O do município do Rio de Janeiro realizará um ato das 10 às 16h em frente à Igreja de São Jorge, no Campo de Santana, no centro da cidade. E a atração será um artista que ficará circulando na área com pernas de pau e um grande cartaz com os dizeres “Obrigado São Jorge! Gilmar Mendes já vai tarde! Campanha em defesa da profissão. Jornalista, só com diploma!”. Já o Sindicato dos Jornalistas da Bahia orientou a categoria a protestar usando roupas pretas na sexta-feira. A entidade distribuirá nas redações e faculdades tarjas pretas e uma praguinha alusiva à saída do Ministro da Presidência do STF com o slogan “Gilmar Mendes, já vai tarde!”. Em Pernambuco, o protesto será durante o 13º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo, às 10h, durante um Café Cultural no Salão Receptivo da Unicap, que sedia o evento.
Fonte: Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Ceará (Sindjorce)

sábado, 17 de abril de 2010

A trajetória de um cineasta cearense feito para inovar

Por: Miguel Costa
Foto: Blog do Crato
Determinação e Teimosia. Essas são duas das muitas palavras que definem a trajetória do cearense Antônio Rosemberg de Moura. Nascido em 1953, no município de Farias Brito-CE, ele tem uma grande bagagem profissional. Rosemberg Cariry, como hoje é conhecido foi jornalista, radialista, poeta, escritor, pesquisador de cultura popular, produtor e atualmente cineasta. Em 1986, o Brasil, principalmente o Ceará, começava a ver os resultados de uma longa trajetória voltada para o popular. Nesse ano, Cariry estreou no cinema com o documentário O Caldeirão de Santa Cruz no Deserto, recebendo elogios de várias partes do mundo, chegando até mesmo a ser premiado.
Morando em Fortaleza, funda a Cariry Produções, especializada na produção de filmes e edição de livros.

As marcas deixadas pelo tempo em seu rosto é fruto do trabalho inovador que ele vem atuando no cinema nacional. A sua educação foi um marco inicial para a formação desse personagem que vive em diversos imaginários. Filósofo por formação e cineasta por vocação, sua trajetória relaciona o profissionalismo com questões regionais, colaborando para a identidade cultural.

A criatividade de Rosemberg fez com que ele não seguisse a estética padrão de filmagens. Desta forma inovou ao filmar sem ensaios e tendo como set de filmagens, o cenário das multidões das romarias, ou melhor, colocando atores para encenarem diante de um cenário não montado e sim figurado naturalmente e acima de tudo composto por pessoas originárias da cultura e da crença popular, por exemplo, Cine Tapúia, com cenas gravadas na Romaria de Canindé, em 2006.

Com o intuito de manter a cultura nordestina viva, o cineasta tem como foco os saberes e as adversidades do povo nordestino. Desta forma o cineasta quebra o paradigma de que as produções cinematográficas do nordeste não passam de uma imagem “preta e branca”, colorindo com qualidade as suas produções. Mostrando que é possível produzir bons filmes fora do eixo Rio-São Paulo. Com o seu diferencial: a valorização dos modos culturais do povo nordestino, em especial o do Ceará.


Miquéias_ Você disse no seu livro “Trinta anos de cinema” que o primeiro pecado que você cometeu foi contra a autoridade do seu pai quando tirou dinheiro de sua bodega para compra uma maçã. Eu quero saber se seu pai era muito autoritário?

Rosemberg_ Não, não, não. Papai pelo contrário, ele era uma pessoa muito doce, muito afável, e que sempre nos protegeu de uma forma muito carinhosa.

Miquéias_ Ela parecia com os pais de seus amigos?

Rosemberg_ Não. Eu acho que papai era – claro cada pai é especial para o seu filho – mas ele era uma pessoa muito especial por que sempre se destacou dentro da comunidade como um homem muito pacato, cordeiro, muito amigo das pessoas. Em toda a trajetória da vida de papai nunca o vi, por exemplo, falar mal de ninguém, nem ninguém falar mal dele. Ele era uma pessoa que não teve rancores, nem raivas pra guardar, não travou lutas contra ninguém. Foi uma vida onde o cuidado com o outro fazia parte da sua existência.

Miguel_ E na trajetória da sua carreira cinematográfica o apoio da família foi bem presente?

Rosemberg_ No sentido de que o meu pai sempre se preocupou muito com minha educação, tanto no comprar os primeiros livros, como no me colocar em seminários. Se as forças econômicas, no dado momento, não permitiam que ele me colocasse no melhor colégio da cidade, que custava caro, no entanto ele sabia que os seminários podiam me oferecer um estudo bastante satisfatório. Então ele me internou num seminário, depois me internou em outro seminário, e isso terminou sendo muito importante para mim por que eu entrei em contato também com toda uma cultura clássica, com todo o aspecto da teologia e da filosofia que terminou sendo importante para mim. Ele chegou a me mandar pra fora do estado pra estudar. No início da década de 70 eu fui para Ouro Preto, em Minas gerais, e passei uma boa temporada lá, e foi ai que se abriram horizontes, eu entrei em contato com outras culturas. Em Ouro Preto todo ano tinha o festival de inverno, que era um festival que reunia o que de mais importante tinha no país. Nessa época, também, eu entro em contato com os movimentos artísticos de vanguarda, tomo conhecimento do movimento musical mineiro, e tantas outras coisas que vivi aos 20 anos. Aquilo pra mim teve uma importância muito grande. Foi na época em que eu comecei a fazer curso de desenho, curso “disso-daquilo-outro”...

Miguel_ Sempre com o apoio da família...

Rosemberg_ Da família. Li muitos livros. Houve também uma redescoberta de grandes poetas brasileiros como Drummond, Manoel Bandeira, a literatura de Guimarães Rosa. Antes eu já tinha lido muito uma literatura de 30, Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, José Lins do Rego, Ariano Suassuna, esse povo todo e tal, mas lá eu entrei em contato com outras leituras, com outras literaturas, com o movimento modernista de 22 – que eu fiz uma releitura – e foi muito importante esse período que eu vivi. Eu agradeço muito a meu pai por ter me dado essa oportunidade.

Miquéias_ Ele investiu muito nos seus estudos. Você acha que era isso que ele esperava de você, um cineasta?

Rosemberg_ Na verdade meu pai nunca me cobrou uma profissão “X” (enfático). Eu acho que mesmo quando ele me colocou num seminário, ele me colocou muito mais pela a oportunidade que eu teria de ter acesso a um estudo de bom nível do que eu seguir uma carreira religiosa. Quando eu fui pra Ouro Preto eu fui pensando na possibilidade de fazer engenharia de minas, ou metalurgia, mas esse contato com as artes foi muito importante e eu já levava também toda uma influência do Cariri cearense. Meu pai era amigo de muitos artistas populares. Patativa do Assaré, cego Heleno e muitos outros, por exemplo, eu conheci através do meu pai. Meu pai tinha amizade com esses artistas populares. Ele freqüentava a bodega dele (Patativa do Assaré). Ele era uma pessoa, um pequeno comerciante, que sempre trabalhou muito e com muita dificuldade, mas que via no estudo a grande possibilidade de crescimento dos filhos, de compreensão do mundo, de conhecimento pessoal, espiritual. Ele investia muito nisso. É tanto que todas as minhas irmãs vieram para Fortaleza, se formaram, e a gente sempre dedicou, durante toda a vida, um carinho muito especial a esse pai como reconhecimento a esse cuidado que ele teve com a gente.

Miguel_ E no seu tempo de escola, o que você já projetava em volta da cultura e do cinema? Você já pretendia seguir essa carreira de cinema?

Rosemberg_ Não. Eu acho que essa vontade de fazer cinema acontece já no final da década de 60 à início da década de 70, quando eu começo a ver filmes, freqüentar cines clubes. Na época, surgem também, as pequenas câmeras super8. Em 1975 eu faço meu primeiro filme já em super8. Eu não tinha acesso a câmeras, mas eu tinha amigos ou conhecidos da classe média alta que já tinham viajado para aos Estados Unidos e o pai tinha trazido uma câmera super8. É claro que naquela época tudo era muito mais difícil. Hoje você tem a comunicação pela internet onde você baixa manuais de português, manuais de linguagens, baixa qualquer coisa. Hoje você tem um acesso direto. Naquela época, não. A gente arranjava um amigo, que emprestava um livro. Então isso começou como um sonho. Depois foi ficando uma coisa mais importante. Escrevi muita poesia, fiz parte de movimentos culturais e artísticos, editei uma revista chamada Nação Cariri, editei outra revista chamada Por Exemplo, participei do grupo de literatura Siri-ará, então sempre estive em atividades muito grandes nos movimentos artísticos da minha época, tanto no pessoal como no coletivo. Notadamente na década de 70.

Elton_ Quanto aos seus filhos, o Petrus é cineasta e a Mayra, atriz. Como o senhor avalia o movimento dos seus filhos com o cinema?

Rosemberg_ Olha, eu acho isso um processo natural. Essas crianças foram praticamente criadas dentro do set de filmagens (lugar onde se constroem cenários de filmes), desde pequenos. Na verdade a Mayra é psicóloga, que atualmente tem seu consultório e trabalha em clínicas e o Petrus se estabeleceu como cineasta, já fez seu primeiro longa-metragem que teve muita importância no cenário nacional e internacional (O Grão, vencedor do 19º Festival de cinema de Viña del Mar). A minha filha mais nova, Bárbara, é que está seguindo nessa carreira, ela está fazendo um curso de Audiovisual em Novas Mídias, na Universidade de Fortaleza (Unifor). Terminou agora o seu primeiro filme, ganhou um prêmio de curta-metragem. Acho isso legal, porém uma área difícil. Mas já que é a vontade deles.

Miquéias_ E a sua esposa, fale sobre ela.

Rosemberg_ Bom, a minha primeira esposa, a mãe dos meus filhos, era atriz, produtora e também esteve ao meu lado. Nós nos separamos em 1994, por aí. Hoje ela mantém uma aproximação com os filhos.

Natália_ O senhor é filósofo por formação e cineasta por vocação. Então queria que o senhor falasse do seu interesse pela filosofia e como ela ajuda na sua atuação?

Rosemberg_ Bom! O meu primeiro contato com a filosofia foi no seminário. Estudei no Seminário de São Francisco, que era dos frades franciscanos e depois no Seminário dos padres alemães, no Crato. E quando eu vim para Fortaleza, resolvi fazer filosofia por uma questão de afinidade, devido a esses primeiros contatos que eu tive. A filosofia me ajudou muito em longos anos. Passei a ter uma visão crítica e um alargamento crítico da visão de mundo. Ela me deu uma contribuição marcante. Para quem faz cinema, não basta ter vocação, tem que ter história do pensamento humano, saber um pouco de psicologia, um máximo de conhecimento sobre o homem, sobre a vida. Então acredito que a filosofia me ajudou muito.

Miguel_ Fazer cinema no Brasil é complicado. Como foi para o senhor engatar essa trajetória em meios às dificuldades? O senhor teve o apoio do governo, através de leis de incentivo a Cultura?

Rosemberg_ Não! Quando começamos foi praticamente um trabalho de mutirão, as pessoas se reuniam, cada um dava a sua pequena contribuição e assim fazíamos os filmes. Pouco a pouco esses filmes começaram a ter um reconhecimento e começamos a ganhar prêmios fora do Estado e começamos a fazer contatos nacionais e internacionais. Então a partir desse momento se alargam as possibilidades e começamos a ter acesso ao fundo de incentivo às produções cinematográficas, tanto nacionais como de algumas instituições internacionais. Foi um longo processo até chegarmos a essa possibilidade.

Miguel_ Ao longo desse processo, o senhor pensou em desistir?

Rosemberg_ Não, eu sempre fui muito teimoso!

Elton_ Falando de teimosia. O jornalista Assis Ângelo, define o senhor, entre tantas outras coisas, como uma pessoa teimosa. O senhor acredita que teimosia é uma característica dos cearenses?

Rosemberg_ Eu acho que o cearense tem essa característica. Está sempre procurando alguma coisa que o realize. É tanto que tem essa fama de “Aves de Arribação”, que vai e descobre outros mundos e busca construir coisas novas nesse novo mundo. Eu acho que é uma característica do povo, não é? E, com certeza, como um filho da cultura, herdei essa característica.

Miquéias_ Falando um pouco de cearensidade. O senhor acha que Fortaleza é uma cidade “cearense”, com essência nordestina?

Rosemberg_ Rapaz eu tenho uma relação difícil com Fortaleza, porque é uma cidade que eu não consigo percebê-la. No final do século XIX, isso aqui era um areal sem nenhuma grande importância. Enquanto no interior você tinha as riquezas culturais. Centros urbanos e culturais importantes, como Crato, Icó e Sobral, tinham muito mais importância intelectualmente, politicamente e economicamente, do que Fortaleza. Fortaleza era uma espécie de povoado. Parece-me que ela foi uma cidade que sempre esteve voltada de costas para o sertão a “espera das caravelas”, “mirando Miami”, sabe? O certo é que é uma cidade sem identidade, sem saudades e sem memória. Fortaleza é uma cidade morna, não tem formas, nem alma ou pelo menos ninguém percebe o que seria, vamos dizer assim, a alma da nossa cidade, não é? Ela se transforma com uma velocidade tão grande que nos montes já nascem escombros, não dá tempo nem pra criar memória. E assim Fortaleza é uma cidade sem memória. Ela tá ficando cada vez mais feia e assombrosa. Eu digo isso porque é uma cidade na qual eu vivo, mas gostaria de vê-la diferente. É uma coisa muito diferente de uma cidade como Olinda (Pernambuco), São Luís do Maranhão, que ainda guardam características muito fortes, eu diria uma alma, um espírito.

Elton_ No artigo publicado no jornal O Povo intitulado “Porque não me orgulho”, o senhor fala do não orgulho de ser cearense. Já que o senhor expõe diversos fatores para não ter orgulho, porque “Cariry” no seu nome?

Rosemberg_ Na verdade eu acho que foi um equívoco de leitura, porque em momento algum eu falo que não me orgulho de ser cearense. Na verdade o que eu coloco é: porque se orgulharia de ser um pernambucano, e não cearense? Por qualquer coisa. Eu não vejo qual é o motivo desse orgulho. Isso aí vai construir uma barreira. Eu me orgulho de ser branco, de ser negro, eu me orgulho de ser cearense e carirense? Também não. Nós vivemos no Estado do Ceará e achamos que temos uma cultura importante, mas a nossa cultura não é maior e nem melhor de que a cultura de “senhor Ninguém”. É nesse aspecto que isso gera ufanismo, criando ou prevalecendo uma frase de marketing, tá me entendendo? Porque “me orgulho” é uma frase perigosa, não é?

Miquéias_ Nesse mesmo artigo que ele (Elton) acabou de citar, o senhor disse que o cearense não tem memória, ou tem uma memória simplória? O senhor tem medo da que sua obra e a sua pessoa sejam esquecidos?

Rosemberg_ Não! Numa leitura mais filosófica, ela é descabida em permanência, ou seja, tudo passa. A preservação da memória, na terceira geração você praticamente não lembram. Quem eram seus bisavôs, seus tataravós. Como eles viveram? Como eles chegaram? Então é um processo natural. Eu acho que a questão não é essa Quando eu falo a questão da memória no Ceara, é uma questão de preservação de uma memória cultural, uma memória histórica, arquitetônica. Você está me entendendo? Não seria uma preocupação pessoal, com sua própria memória, mas é uma memória coletiva da qual estou falando.

Natália_ Esse seria um dos motivos para o senhor fazer a produção do cinema voltada para a cultura regional?


Rosemberg_ Acho que uma das minhas preocupações é essa. Acho que o meu cinema tem muito dessa preocupação de preservação de uma memória coletiva, da expressão da cultura de um povo – que na verdade se faz da mescla de muitas culturas com a contribuição de muitos povos.

Miguel_ No projeto “Cante lá, Que Eu Canto Cá” o Senhor fez uma homenagem ao poeta Patativa do Assaré. O que o poeta representa na sua história pessoal?

Rosemberg_ Olha, com o Patativa eu tinha uma relação muito especial de proximidade e de compadrio. Eu conheci o Patativa desde o inicio da década de 60. Patativa praticamente me inicia na literatura, me sugere alguns livros. Por conta da amizade dele com o meu pai, ele ficou como se fosse uma espécie de pai espiritual. Sempre tive por Patativa uma grande dedicação e um amor muito grande.

Miguel_ Esse foi o motivo do qual o senhor o homenageou?

Rosemberg_ Não. Independe de sermos compadre, me parece que ele é um dos grandes poetas do Brasil e que merece homenagens. A minha foi uma entre as milhares de outras.

Elton_ Em seus filmes é possível encontrar histórias parecidas com as suas, desde a infância até o profissionalismo?

Rosemberg_ Acho que sim. Eu acho que todo filme termina trazendo alguma coisa das nossas vidas, dos nossos sonhos.

Miquéias_ Dizem que adaptar uma obra literária para o cinema é tão difícil que alguns consideram até uma maldição. O senhor já fez adaptação de uma lenda, “Lua Cambará”, já fez em “Cine Tapuia” uma analogia à obra de José de Alencar, Iracema. O senhor pretende fazer alguma adaptação de uma obra literária? E quais suas dificuldades?

Rosemberg_ Não, não. Pretendo não. Mas eu acho que há adaptações maravilhosas. “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos é uma das obras-primas do cinema mundial, e é uma adaptação de Graciliano Ramos, só pra te citar um exemplo. Então, nem sempre é uma maldição, muitas vezes quando dá certo...

Miquéias_ Mas, por exemplo, “O Guarani” já teve várias...

Rosemberg_ É, mas você cita O Guarani, cita um, ou outro, mas não é regra, têm muitas...

Miquéias_ Na maioria...

Rosemberg_ É, mas não é regra. Há adaptações que dão certo, desde que não sejam adaptações ao pé da letra, porque cinema é uma coisa, literatura é outra. Por exemplo, quando você fala de José de Alencar, apenas eu faço uma referência ao mito fundador de Iracema. Eu nem guardo a mesma história, nem a dramaturgia, nem a mesma narrativa, nada. É um espírito. O filme é totalmente um mito e se passa em 2008: é um vendedor de DVDs e CDs piratas, é um cego que passa filmes, não têm índios ou os índios que tem são os nossos índios que se reinventam , em busca de identidade. É outra coisa. Na verdade é um filme que se pergunta mais sobre a nossa origem indígena, sobre essa questão de ser caboclo. A vergonha que nós temos nisso, de não assumir essa mestiçagem.

Miguel_ Como o senhor avalia o conteúdo apresentado pelo filme Lisbela e o Prisioneiro que retratou o sertão nordestino, acha que tem traços parecidos com as suas obras?

Rosemberg_ Não. Eu acho que o Guel Arraes ( Diretor do filme Lisbela e o Prisioneiro) tem um olhar muito especial sobre o nordeste, e muito competente no que faz. Da mesma forma como Ariano Suassuna também tem, um olhar muito especial sobre o nordeste...

Miguel_ Ele tratou bem a cultura Regional, do mesmo jeito que senhor trata...

Rosemberg_ É, mas são diferentes, são modelos de produção diferentes, formas diferenciadas, estética diferenciada.

Miguel_ Qual a sua estética?

Rosemberg_ Por exemplo, um filme como o Cine Tapuia é uma ficção que se insere no real. Nós chegávamos numa romaria em Canindé, colocávamos os atores dentro daquela realidade e filmamos uma ficção. Um Filme de ficção dentro da realidade, é totalmente diferente do modelo de ficção do Guel Arraes. São ensaios e etc. É uma outra coisa, e a tradução é diferente. Embora trabalhemos com temáticas muito próximas.

André_ Quanto aos seus projetos atuais, o senhor tem algum em andamento?

Rosemberg_ Tenho alguns. Estou querendo fazer um filme chamado “O alto do Lampião no além”, a partir da peça teatral do professor Cândido do Piauí e do cordel “A chegada do Lampião ao Inferno”. É uma farsa, que tem muito dos altos e da literatura picaresca, medieval, da literatura de cordel. Estou trabalhando atualmente neste projeto.

Miguel_ Segundo o senhor, o cinema brasileiro possui uma trindade, Humberto Mauro com seu lirismo interiorano, é o pai, Glauber Rocha com seu sertão barroco e violento é o filho, Nelson Perreira de todos os Santos. Como o senhor se classifica no meio cinematográfico no Brasil?

Rosemberg_ Veja bem. Eu sou um diretor que, por conta do modelo de produção, por conta do fato de viver no Ceará, terminou adquirindo características muito próprias. Eu participo do grande cinema brasileiro, mas eu não sou o grande cinema brasileiro, eu não fui pro Sudeste, não fui pro Rio, pra São Paulo, mas percorri o mundo, por muitos países e...

Miguel_ Mantendo a autenticidade da cultura?

Rosemberg_ Eu não diria autenticidade, porque eu não sei o que seria autenticidade, originalidade. O que seria? Eu não sei! Tudo é uma construção, uma busca. Diria que, pelo menos vivemos em uma terra, imerso de alguma forma nesse caldo cultural.

Miquéias_ Suas obras seguem uma espécie de tese, antítese e síntese? Pois em "Corisco e Dadá" a mulher é submissa e o homem um aventureiro desbravado. Já em "Lua Cambará" o homem é um pouco mais misterioso, contemplativo, enquanto a mulher é entregue aos desejos e cheia de rancor e ódio. Você pretende fazer alguma síntese desses dois personagens?

Rosemberg_ Quando vou fazer um filme tenho todo um pensar sobre aquela história, e eu diria mesmo: existe uma tese. Cada filme responde a determinados tipos de perguntas que perguntas filosóficas, especiais ou históricas. E é claro que isso termina contribuindo muito na elaboração dos personagens e do argumento dos filmes, na dramaturgia desses filmes. Na verdade cada homem tem um pouco de mulher, da alma feminina dentro de si, assim como a mulher também tem um pouco da alma masculina dentro de si. Em Corisco e Dadá, a estrutura do filme é de uma tragédia. Corisco é um homem condenado por Deus a lavar os pecados do mundo com sangue, com a violência, e ele se cansa daquilo, porque ele em só cumprir a vontade de Deus, não se afirma como homem. Eu acho que Adão e Eva, afirmaram-se como humanos no dia em que comeram a maça e a partir disso teve consciência da sua nudez e de si mesmos. Então Corisco chega num momento em que rompe com Deus, na morte do terceiro filho. Dada, como mulher, é o elemento que o humaniza. É tanto que aquela menina frágil vai crescendo, crescendo. No final do processo, de decadência, quem cresceu foi Dadá. E termina, inclusive, assumindo a luta no Nordeste. O cangaço no nordeste termina pelas mãos de uma mulher: Dadá. Em “Cambará” eu mostro exatamente o oposto, uma mulher tomada pela alma do macho. Nós vivemos em uma sociedade profundamente machista. A sociedade sertaneja é violenta e machista e muitas vezes as mulheres tomam pra si esse papel dos homens para se impor dentro da sociedade, isso, muitas vezes, com o sacrifício da sua alma mais profunda e transformadora, que seria da alma feminina, no sentindo criativo e imaginoso.


André_ O senhor falou da influência picaresca em seu novo trabalho. Quais autores ou obras da literatura picaresca o senhor poderia citar como parte dessa influência?

Rosemberg_ Rapaz eu li o Lazarillo de Tormes e estes que chegam através da literatura popular como: Cão de Fogo, João Grilo, Pedro Malasarte. Personagens que são da literatura popular. Li cordéis, contos, que são maravilhas populares.

Natália_ E as referências, aqui no ceará, na poesia, na literatura, ainda vivas?

Rosemberg_ São muitas. O Zé Alcides Pinto, grande Alcides, Moreira Campo, Francisco Carvalho, um dos grandes poetas brasileiros, Carlos Henrique, o Correia Lima, Oswaldo Barroso. Ah, são muitos.

Miguel_ Agora a gente sai um pouco do Rosemberg cineasta e vamos para o seu envolvimento na política. Como se deu esse processo?

Rosemberg_ Isso é natural, nos fazíamos movimentos artísticos. Desses movimentos nos começamos a participar em meados da década de 70, época da ditadura. Ainda no final da década de 70 se começou toda uma agitação social e política no país que buscava a redemocratização do país e naturalmente dentro dessas inquietações a juventude respondia, digamos, aos chamados do seu tempo, se engajava nas lutas, participava das Diretas já! Participava do movimento estudantil, diretório – aquela coisa toda da época – que foi muito bom.

Elton_ Na época em que o senhor era secretário de cultura da cidade do Crato, o senhor implantou o projeto de revitalização de favelas através da cultura e das artes populares. O senhor acredita que, de certa forma, tem alguma dívida para com o estado?

Rosemberg_ Eu acho que é preciso você pensar na a arte e na cultura como uma coisa ampla e inserida no contexto de transformação. O que nos queríamos com o “rabo da gata” que era um centro populacional degradado, o centro da cidade em condições sociais muito difíceis. A gente achou que caberia a primeira coisa era reconhecer aquele tipo de arquitetura, ruazinha subindo ladeira, pequenos jardins nas laterais das casas, como uma manifestação legitima da cultura popular. No primeiro momento fizemos todo um trabalho de mutirão, de saneamento, depois o melhoramento dessa arquitetura. Nós não reconstruímos as casa como as casas populares, mas nos desenhos das fachadas, nas cores, nas criações dos jardins e fizemos uma coisa que a própria população começou a participar disso. Criamos biblioteca, uma rádio comunitária. Era muito generoso assim o projeto inicialmente. Pensávamos na criação de uma fábrica de brinquedos populares. O Rabo da Gata virou um selo para uma associação de artesão. Foi uma forma de envolver aquela comunidade e transformá-la, onde a cultura teria seu papel muito importante dentro desse processo. Foi uma experiência na verdade, que se realizou em parte.

Miquéias_ Como o senhor ver hoje a iniciativa do Governo estadual e da prefeitura com relação à cultura, o senhor acha que melhorou em relação a década passada?

Rosemberg_ Eu não posso te falar isso rapaz, o que eu te digo é o que sempre achei, eu não estou afirmando que se investe muito pouco em cultura, eu acho é que deveria ser investido pelo menos dez por cento do orçamento da nação, e de cada Estado, na cultura. Acho que o capital mais precioso que se tem é a alma humana. E isso se faz junto a um processo de desenvolvimento que caberia também no desenvolvimento econômico. Então preciso compreender a cultura como um motor de grande transformação social e econômico. A cultura, na verdade, é locomotiva e não pode ir a reboque.

Miguel_ Com os filmes internacionais o regionalismo vem perdendo espaço. O senhor concorda com isso?

Rosemberg_ Não. Na verdade eu acho que com o processo de globalização e até é perigoso isso, mas há cada vez mais uma busca de identidade, de pertencimento a determinado grupos de pensamento a determinados grupos universitários, é tanto que o nacionalismo vem surgindo de uma forma até perigosa, eu acho que tudo isso vem uma resposta muito poderosa. E hoje no mundo tem surgindo cinemas nacionais muito importantes cinema da Europa, cinema de alguns países da Ásia, cinema iraniano, ou seja, isso é uma resposta muito positiva, digamos assim, a essa hegemonia da indústria áudio visual norte-americana que domina o mercado cinematográfico mundial.

Miguel_ Você acha que hoje, como se propaga, o cinema Brasileiro está vivendo o seu melhor momento?

Rosemberg_ Não. Eu acho que ele está lutando, para conquistar o espaço, e que é muito difícil essa luta.

Miquéias_ Mas, comparando com outros momentos.

Rosemberg_ De que época? Você tem que se situar. O Brasil viveu ciclos, entende?

Miquéias_ O cinema novo.

Rosemberg_ Não. O cinema novo foi um cinema de muito prestigio nacional e internacional. O cinema de hoje é um cinema que busca uma ocupação no mercado é um outro tipo, com outras preocupações. Não tem as mesmas preocupações que tinha o da década de 60, seja na estética, ou na preocupação política. É um outro tipo de cinema. Acho que é isso mesmo que se faz no Brasil, um cinema que busca uma ocupação no mercado. Existem alguns diretores que resistem a essa fórmula, do cinema como mercadoria, que fazem um cinema de artes, mais autoral, mais radical.

Miquéias_ Você acha que o mercado censura as obras cinematográficas brasileiras?

Rosemberg_ A questão não é a censura. A questão é quem tem os meios de produção e os de distribuição. A distribuição do cinema brasileira está nas mãos de grandes grupos econômico que estão ligados também a interesses de outros grandes grupos transnacionais, entendeu? O cinema brasileiro, dentro disso tudo, participa de uma parcela ínfima desse mercado, por volta, apenas, de 10% a 15% do mercado interno. E isso graças à lei que reveza e diz “tantos filmes nacionais por ano e tantos internacionais”. Mesmo assim é difícil. O cinema brasileiro chega com pouco recurso, chega com poucas cópias, com pouco dinheiro pro lançamento pra publicidade. Já maioria dos filmes norte-americanos, quando aqui chegam já chegam coberto pela mídia nacional e internacional desde quando estão filmando. Você já sabe qual atriz foi escolhida, se brigaram, se não brigaram, quem se apaixonou por quem...

Miquéias_ Até antes de ir para o cinema já tem o DVD pirata à venda (comenta).

Rosemberg_ É. Já tem tudo. Principalmente a mídia e a fofoca.


Miquéias_ Você é cineasta, poeta. Dizem que os artistas são um pouco temperamentais. Você se considera uma pessoa complexa?

Rosemberg_ Complexa? Não, não aparento. No cotidiano da vida, com os meus netos, meus filhos, com as pessoas, nas romarias, nas festas populares, sou da forma mais normal possível. Questões de angustia existencial, preocupações filosóficas, são as que todos nos temos diante da própria fragilidade humana, das questões do dia a dia, pela própria vida, pelo desafio da vida.

Elton_ O senhor gostaria de mencionar mais alguma coisa que nós não exploramos?

Rosemberg_ Não. Apenas dar os parabéns à Faculdade de vocês, por esse trabalho. Eu acho que uma entrevista como essa termina sendo também, como uma espécie de dialogo, que você começa a estabelecer fora do território da faculdade. É bom saber das outras pessoas. Conhecer sobre os poetas, sobre os escritores, sobre os cineastas. Isso de certa forma vai alargando o conhecimento de vocês e vai dando também para vocês instrumentos de conhecimento da cultura do Estado, de uma forma mais ampla. Eu fico contente em ter conversado com vocês.
Entrevista feita pelos alunos do curso de jornalismo da Faculdade 7 de Setembro.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Congresso da UVC reúne vereadores da capital e do interior em Fortaleza. Na ocasião Tasso ironiza a visita de Dilma Roussef (PT) ao Estado

No Congresso Tasso Jereissati alfineta Dilma Roussef e traz a tona uma possível afronta a Ciro Gomes (PSB-CE) por parte da candidata do PT à presidência.O congresso foi o melhor que a UVC já realiazou, segundo Deuzinho Filho presidente da entidade dos vereadores.
Por: Miguel Anderson Costa

O XXVII Congresso Estadual dos Vereadores do Ceará reúniu aproximadamente 500 pessoas no primeiro dia de evento (12/04), teve início ás 10h, no Hotel Gran Marquise em Fortaleza-CE. O Congresso é realizado pela União dos Vereadores e Câmaras do Ceará (UVC) e recebeu convidados de grande repercussão no cenário político nacional. Esteve presente o senador tucano Tasso Jereissati (PSDB-CE), que na ocasião palestrou sobre "O papel do vereador no legislativo brasileiro" e ainda recebeu das mãos do Presidente da UVC e vereador de Caucaia Deuzinho Filho (PMN-CE), o Prêmio Américo Barreira como forma de reconhecimento por parte dos vereadores do Ceará, pelo apoio e pelos serviços prestados em defesa dos parlamentares municipais. Na tribuna, o senador tucano não poupou elogios ao Presidente da Câmara de Vereadores de Fortaleza, vereador Salmito Filho (PT-CE). Tasso também falou sobre as suas experiências políticas e destacou que os vereadores são as pessoas mais próximas dos eleitores e que eles lutam democraticamente por melhores condições de vida para as populações de cada município, ou seja, "A Câmara dos vereadores é a verdadeira representação da população. É ele quem vê de perto a pressão do povo por emprego, infraestrutura, por comida. Ele convive com o drama pessoal dos seus vizinhos", declarou. Ele concluiu a palestra agradecendo a Deuzinho Filho pelo convite e deu entrevistas à imprensa. Em uma das entrevistas concedidas, o senador ironizou a visita da candidata petista á presidência da república Dilma Roussef à Fortaleza hoje e amanhã (13/04). " Realmente a Dilma precisa conhecer o Ceará e o povo cearense, sua vinda é uma afronta a Ciro Gomes!". Tasso concluiu dizendo que é candidato a reeleição ao senado e que é possível uma aliança com o Governador Cid Gomes, tudo dependerá do resultado de uma reunião. O ex- governador não descartou a possibilidade de um candidato tucado na corrida pelo governo do Estado.
O Ministro da Previdência Social José Pimentel (PT-CE) também esteve presente na reunião dos vereadores. Ele destacou em seu discurso o esforço de Deuzinho Filho e Salmito Filho para implantar o Projeto Balcão do Empreendedor em todas as câmaras municipais cearense. O projeto é modelo no Brasil e é realizado na câmara municipal de Fortaleza e tem como objetivo, estimular o pequeno empreendedor á invistir em um negócio. Esse estímulo é feito através de pequenos empréstimos e orientação profissional para um empreendedor. O Ministro também destacou a reforma feita no sistema da previdência social, através da construção de novas agências do INSS, desta forma melhorando o atendimento aos cidadãos.
Ao meio-dia os vereadores vindos de todas as macro-regiões do Ceará, almoçaram com o Presidente da UVC Deuzinho Filho e convidados. Deuzinho destacou que os congressos de vereadores são escolas de aprendizagem para os parlamentares municipais. Afirmou também que todos os vereadores presentes, são pessoas comprometidas com o povo, pois mesmo com a redução do repasse de verbas para as câmaras municipais, os vereadores vão buscar conhecimentos e novas práticas de como fazerem um bom mandato. Desta forma construíndo uma classe unida e atuante quando se trata dos assuntos relacionados ao povo.
Pela tarde e o audiório novamente lotado foi realizada mais uma palestra aos edis presentes. A palestra foi proferida pelo Presidente da Assembléia Legislativa do Ceará, Deputado Domingos Filho (PMDB-CE), relator da emenda que visa a emancipação/criação de novos municípios; e pelo Deputado Estadual Heitor Férrer (PDT-CE) que se diz contra a emancipação em alguns casos e que a emenda elaborada por Domingos Filho, é inconstitucional. Os dois parlamentares defendem que a emancipação deve ser feita através de uma votação popular do município envolvido. Domingos Filho ressaltou que a região nordeste é a que estar mais preparada para receber novos municípios. O primeiro dia de congresso foi concluído com um debate entre os convidados, Domingos Filho e Heitor Férrer, com os vereadores presentes.
O Presidente da UVC Deuzinho Filho avaliou o congresso de forma positiva e que o evento superou as espectativas " tivemos que aumentar o auditório, porque as minhas crianças (referiu aos vereadores de forma carinhosa) estão vindo se capacitarem".

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Aos Olhos de Iracema: passas em exposição

Quem fica nos bastidores da orla alencarina conhece uma outra noite da mesma cidade.
A Avenida Beira Mar e a Praia de Iracema - palco para o sustento de famílias – também servem como ponto de encontro, espaço de lazer e cultura. Com suas paisagens cercadas por coqueiros, hotéis, feirinhas de artesanato e o verde mar que banha todo o percurso do calçadão, elas recebem turistas, vindos de toda parte do mundo.
Quando a noite, enfim, termina, os visitantes se despedem do cenário de Iracema. A avenida toda iluminada, deixa, então, rolar, agora desavergonhadamente, as moças pelas calçadas. Garotas de programa que acompanham diariamente os bastidores de uma praia que já foi vida de boêmios cearenses, e hoje é só recordações.
As prostitutas que circulam pela Avenida Beira Mar sabem melhor do que ninguém como aquele espaço público vem sofrendo com a redução de visitantes. Vindas de vários cantos desta capital, dos bairros periféricos como Tancredo Neves e de estados como São Paulo e Manaus, as garotas que vendem seus corpos. As garotas do prazer vão tomando seus lugares na avenida à espera de seus clientes. Em suas vestes, em seus rostos e em suas atitudes escondem histórias de vida reveladoras, atraentes, impressionantes e acima de tudo reais. Constantemente vítimas do preconceito e da violência, não aceitam um não como um obstáculo para entrarem em cena.
Esse palco imenso que tem como espectadora fiel, a estátua de Iracema, a índia do escritor cearense José de Alencar. Também ela vê como as garotas de programa fazem do prazer uma mercadoria, chamando a atenção do público para a praia mais famosa da terra da luz.
Um passado conturbado. Um presente de preconceitos. Um futuro promissor?

Sofrimento, preconceito e sucesso no futuro. Essas são as palavras para definir uma história real de uma das garotas do prazer na Praia de Iracema. Nessa história real o nome da protagonista é fictício, Sandrinha Capitu, que foi vítima da exploração sexual aos 14 anos. “Sou bonita, nova e gostosa, então comecei a me prostituir inicialmente na BR 116 para os caminhoneiros, até porque era perto da minha casa.", esclarece a garota de programa, que via na infância um sonho que virou pesadelo e hoje a mulher que sustentou toda a família através da profissão mais antiga do mundo, à prostituição. Com a perda do pai para as drogas (crack) aos oito anos, a doença da mãe (trombose) e a fome dos seus oito irmãos influenciaram Sandra a entrar na atividade do comércio lucrativo do prazer. Do bairro Tancredo Neves, na periferia da capital, para a Praia de Iracema, esse é o trajeto da garota que faz do sexo um ganha pão, com um detalhe, isso com uma perspectiva de futuro promissor voltado para cuidar das pessoas. Aos 24 anos, revela que um dia será enfermeira. “Aqui na Praia de Iracema já fui alvo de chacotas, mas nunca chegaram a me espancar!" declara Capitu relacionando com um dos seus maiores traumas, as drogas, que, como enfatiza, destrói famílias. A prevenção contra a AIDS ainda é o maior remédio, confiar nos preservativos dos clientes é um tiro no escuro. Sandra já perdeu duas amigas da mesma atividade para AIDS e com isso ela só faz "programa" com os seus preservativos e não confia no do cliente.
Com um mini vestido preto, batom vermelho nos lábios e com um salto alto, ela fica na esquina da Avenida Beira Mar com a Rua Antônio Augusto à espera de clientes. Vê o dia amanhecer, a contemplar o nascer do sol.

A realidade nua e crua

É nesse contexto que se encontra a jovem garota de programa Andréia Miranda, 23 anos. O cenário é o mesmo de Sandra Capitu, a Praia de Iracema. O diferencial está nos altos prédios, hotéis localizados na orla de Fortaleza. Da Avenida da Abolição para a Avenida Beira Mar, esse é o rodízio de Andréia, vinda de Sorocaba, no estado de São Paulo. “Eu faço programa para pagar a minha faculdade" justifica a jovem estudante do curso de Recursos Humanos (RH), que por questão de sigilo, preferiu não falar em qual Instituição. Um de seus obstáculos é o preconceito, não somente por ser prostituta, mas por ser negra, que em muitos casos é vítima de palavras que para ela "magoam". Ela define isso como um obstáculo a ser vencido. Sua cor tem favorecido em muito os programas com estrangeiros, estes que muitas vezes vêm ao Ceará em busca do turismo sexual. “Sou uma menina alegre, batalhadora com os meus objetivos”. Paixão e persistência são palavras bem presentes no vocabulário da garota de programa. Segundo ela, um de seus maiores traumas é “se apaixonar pela pessoa errada" e se tudo poderia ser diferente? Ela esbraveja "Poderia não, vai ser diferente!". Numa noite fria, numa terça-feira do mês de fevereiro, seus lábios tremem como conseqüência da noite que caía com uma neblina que banhava tudo e a todos. A realidade de Andréia é bem diferente de muitas “garotas do sexo". Ela tem uma perspectiva de vida e pretende construí-la através de uma realidade nua e crua, com a capacidade de vencer desafios.

O que fica escondido por trás de um sorriso e de muitos sonhos

Diferente de Sandra Capitu, que se prostitui para sustentar a família, de Andréia Miranda, que vende seu corpo para pagar os seus estudos, a garota de programa Luana Silvia afirma “Não tenho vergonha, faço porque gosto, é dinheiro fácil!". Luana, 24 anos, corpo de mulher, se emociona ao falar do futuro. "Menino! Sabia que ainda vou encontrar o meu príncipe encantado, tenho muita esperança com isso sabe? Sou sonhadora demais e pra mim tudo é possível". O motivo que a levou para a atividade do sexo, além de hobby (gosto), é o seu filho de dois anos, filho esse que ela cria com a ajuda da mãe. “Como não consegui um emprego de carteira assinada, venho a Beira Mar me prostituir e assim sustentar o meu filho” O pai da criança foi embora para Manaus e a abandonou, ainda grávida de quatro meses. A violência esteve presente na trajetória de Luana. Na infância foi espancada pelo pai, que chegava bêbado em casa. Na rua, pela ex-mulher de um dos seus clientes, revoltada com a separação e a traição do esposo com Luana. Com a imagem nítida de um passado sofrido, Luana revela: “No começo (quando começou a se prostituir) eu usava drogas para poder ter coragem de fazer programa, mas hoje eu não uso mais e faço sexo por esporte”
Ilusões e planos
Os sonhos no horizonte não vacilavam diante da brisa. Andressa, 23, homossexual travestido, encanta pela sua capacidade de acreditar na vida. Pouco importava o que a levou até as ruas e lá a manteve, porque, para ela, o que fazia sentido era alcançar seus objetivos; apenas “lucrar” de maneira fácil e rápida. Precisava sobreviver.
Andressa, que mora próximo à Praia de Iracema, busca através do sexo a sua independência financeira. Afirma que está nessa área porque gosta, optou por estar ali. E viver dessa profissão faz com que seus objetivos se realizem com maior agilidade. Para ela, trabalhar, acordar cedo, pegar ônibus coletivo lotado é muito cansativo. “Estou aqui porque quero, eu gosto, já trabalhei de carteira assinada, mais pegar ônibus lotado não dá. O que uma pessoa passa um mês para ganhar, eu ganho aqui, em uma ou duas noites”.
Andressa já comprou uma casa para sua mãe, fruto do comércio do sexo. E parte dela o sustento de sua família. Revela que já passou por momentos de muito perigo, em que houve a procura de seus serviços, e na hora de pagar, o cliente apontou-lhe uma arma na cabeça, ela simplesmente ficou parada e não ganhou nada pelo serviço prestado.
Na visão dela, existe um grande descaso por parte da sociedade em relação às garotas de programa, principalmente tratando-se de travestis. Andressa já foi vitima de ataques de pedras, ovos, xingamentos por parte de pessoas que passam de carro pelo local em que ela faz seu programa. Surpreende-nos quando declara que já saiu com grandes personalidades da sociedade fortalezense. “Já sai com repórteres, vereadores e policias, e sou muito discreta para com os meus clientes”.
O sonho de Andressa é um dia morar em Portugal, trabalhar como garota de programa, ganhar dinheiro, e a partir daí, deixar a profissão de vender o corpo por dinheiro. Diz-se destemida da vida, e que temos que arriscar. Quanto à morte, para ela, um dia todos vamos morrer. “Não tenho medo de nada, a vida é assim e, se nascemos, um dia temos que morrer”.

A noite cai e o dia nasce

Sob o olhar de Iracema, pessoas fazem do calçadão à beira mar o seu local de lazer. A “feirinha” como é conhecida na cidade de fortaleza, faz o complemento do comércio para os turistas e nativos.
Desce a lua, sobe o sol. A Praia de todos, das prostitutas - de Sandra Capitu, Andréia Miranda, Luana Silvia e Andressa -, dos freqüentadores, artistas, turistas, pescadores e acima de tudo da musa de José de Alencar, Iracema, é um dos principais palcos da capital da luz e do humor. A prostituição que compõe aquele ambiente, com a virada da noite se esconde, adormece. Retorna a noite para mais uma vez, aos olhos de Iracema, iniciar o comércio do prazer. E a aldeia vai vivendo das mesmas lendas.


Reportagem feita por Miguel Anderson e Elton Mesquita, que foi inscrita no Concurso Adísia Sá de jornalismo 2010.