quinta-feira, 8 de abril de 2010

Aos Olhos de Iracema: passas em exposição

Quem fica nos bastidores da orla alencarina conhece uma outra noite da mesma cidade.
A Avenida Beira Mar e a Praia de Iracema - palco para o sustento de famílias – também servem como ponto de encontro, espaço de lazer e cultura. Com suas paisagens cercadas por coqueiros, hotéis, feirinhas de artesanato e o verde mar que banha todo o percurso do calçadão, elas recebem turistas, vindos de toda parte do mundo.
Quando a noite, enfim, termina, os visitantes se despedem do cenário de Iracema. A avenida toda iluminada, deixa, então, rolar, agora desavergonhadamente, as moças pelas calçadas. Garotas de programa que acompanham diariamente os bastidores de uma praia que já foi vida de boêmios cearenses, e hoje é só recordações.
As prostitutas que circulam pela Avenida Beira Mar sabem melhor do que ninguém como aquele espaço público vem sofrendo com a redução de visitantes. Vindas de vários cantos desta capital, dos bairros periféricos como Tancredo Neves e de estados como São Paulo e Manaus, as garotas que vendem seus corpos. As garotas do prazer vão tomando seus lugares na avenida à espera de seus clientes. Em suas vestes, em seus rostos e em suas atitudes escondem histórias de vida reveladoras, atraentes, impressionantes e acima de tudo reais. Constantemente vítimas do preconceito e da violência, não aceitam um não como um obstáculo para entrarem em cena.
Esse palco imenso que tem como espectadora fiel, a estátua de Iracema, a índia do escritor cearense José de Alencar. Também ela vê como as garotas de programa fazem do prazer uma mercadoria, chamando a atenção do público para a praia mais famosa da terra da luz.
Um passado conturbado. Um presente de preconceitos. Um futuro promissor?

Sofrimento, preconceito e sucesso no futuro. Essas são as palavras para definir uma história real de uma das garotas do prazer na Praia de Iracema. Nessa história real o nome da protagonista é fictício, Sandrinha Capitu, que foi vítima da exploração sexual aos 14 anos. “Sou bonita, nova e gostosa, então comecei a me prostituir inicialmente na BR 116 para os caminhoneiros, até porque era perto da minha casa.", esclarece a garota de programa, que via na infância um sonho que virou pesadelo e hoje a mulher que sustentou toda a família através da profissão mais antiga do mundo, à prostituição. Com a perda do pai para as drogas (crack) aos oito anos, a doença da mãe (trombose) e a fome dos seus oito irmãos influenciaram Sandra a entrar na atividade do comércio lucrativo do prazer. Do bairro Tancredo Neves, na periferia da capital, para a Praia de Iracema, esse é o trajeto da garota que faz do sexo um ganha pão, com um detalhe, isso com uma perspectiva de futuro promissor voltado para cuidar das pessoas. Aos 24 anos, revela que um dia será enfermeira. “Aqui na Praia de Iracema já fui alvo de chacotas, mas nunca chegaram a me espancar!" declara Capitu relacionando com um dos seus maiores traumas, as drogas, que, como enfatiza, destrói famílias. A prevenção contra a AIDS ainda é o maior remédio, confiar nos preservativos dos clientes é um tiro no escuro. Sandra já perdeu duas amigas da mesma atividade para AIDS e com isso ela só faz "programa" com os seus preservativos e não confia no do cliente.
Com um mini vestido preto, batom vermelho nos lábios e com um salto alto, ela fica na esquina da Avenida Beira Mar com a Rua Antônio Augusto à espera de clientes. Vê o dia amanhecer, a contemplar o nascer do sol.

A realidade nua e crua

É nesse contexto que se encontra a jovem garota de programa Andréia Miranda, 23 anos. O cenário é o mesmo de Sandra Capitu, a Praia de Iracema. O diferencial está nos altos prédios, hotéis localizados na orla de Fortaleza. Da Avenida da Abolição para a Avenida Beira Mar, esse é o rodízio de Andréia, vinda de Sorocaba, no estado de São Paulo. “Eu faço programa para pagar a minha faculdade" justifica a jovem estudante do curso de Recursos Humanos (RH), que por questão de sigilo, preferiu não falar em qual Instituição. Um de seus obstáculos é o preconceito, não somente por ser prostituta, mas por ser negra, que em muitos casos é vítima de palavras que para ela "magoam". Ela define isso como um obstáculo a ser vencido. Sua cor tem favorecido em muito os programas com estrangeiros, estes que muitas vezes vêm ao Ceará em busca do turismo sexual. “Sou uma menina alegre, batalhadora com os meus objetivos”. Paixão e persistência são palavras bem presentes no vocabulário da garota de programa. Segundo ela, um de seus maiores traumas é “se apaixonar pela pessoa errada" e se tudo poderia ser diferente? Ela esbraveja "Poderia não, vai ser diferente!". Numa noite fria, numa terça-feira do mês de fevereiro, seus lábios tremem como conseqüência da noite que caía com uma neblina que banhava tudo e a todos. A realidade de Andréia é bem diferente de muitas “garotas do sexo". Ela tem uma perspectiva de vida e pretende construí-la através de uma realidade nua e crua, com a capacidade de vencer desafios.

O que fica escondido por trás de um sorriso e de muitos sonhos

Diferente de Sandra Capitu, que se prostitui para sustentar a família, de Andréia Miranda, que vende seu corpo para pagar os seus estudos, a garota de programa Luana Silvia afirma “Não tenho vergonha, faço porque gosto, é dinheiro fácil!". Luana, 24 anos, corpo de mulher, se emociona ao falar do futuro. "Menino! Sabia que ainda vou encontrar o meu príncipe encantado, tenho muita esperança com isso sabe? Sou sonhadora demais e pra mim tudo é possível". O motivo que a levou para a atividade do sexo, além de hobby (gosto), é o seu filho de dois anos, filho esse que ela cria com a ajuda da mãe. “Como não consegui um emprego de carteira assinada, venho a Beira Mar me prostituir e assim sustentar o meu filho” O pai da criança foi embora para Manaus e a abandonou, ainda grávida de quatro meses. A violência esteve presente na trajetória de Luana. Na infância foi espancada pelo pai, que chegava bêbado em casa. Na rua, pela ex-mulher de um dos seus clientes, revoltada com a separação e a traição do esposo com Luana. Com a imagem nítida de um passado sofrido, Luana revela: “No começo (quando começou a se prostituir) eu usava drogas para poder ter coragem de fazer programa, mas hoje eu não uso mais e faço sexo por esporte”
Ilusões e planos
Os sonhos no horizonte não vacilavam diante da brisa. Andressa, 23, homossexual travestido, encanta pela sua capacidade de acreditar na vida. Pouco importava o que a levou até as ruas e lá a manteve, porque, para ela, o que fazia sentido era alcançar seus objetivos; apenas “lucrar” de maneira fácil e rápida. Precisava sobreviver.
Andressa, que mora próximo à Praia de Iracema, busca através do sexo a sua independência financeira. Afirma que está nessa área porque gosta, optou por estar ali. E viver dessa profissão faz com que seus objetivos se realizem com maior agilidade. Para ela, trabalhar, acordar cedo, pegar ônibus coletivo lotado é muito cansativo. “Estou aqui porque quero, eu gosto, já trabalhei de carteira assinada, mais pegar ônibus lotado não dá. O que uma pessoa passa um mês para ganhar, eu ganho aqui, em uma ou duas noites”.
Andressa já comprou uma casa para sua mãe, fruto do comércio do sexo. E parte dela o sustento de sua família. Revela que já passou por momentos de muito perigo, em que houve a procura de seus serviços, e na hora de pagar, o cliente apontou-lhe uma arma na cabeça, ela simplesmente ficou parada e não ganhou nada pelo serviço prestado.
Na visão dela, existe um grande descaso por parte da sociedade em relação às garotas de programa, principalmente tratando-se de travestis. Andressa já foi vitima de ataques de pedras, ovos, xingamentos por parte de pessoas que passam de carro pelo local em que ela faz seu programa. Surpreende-nos quando declara que já saiu com grandes personalidades da sociedade fortalezense. “Já sai com repórteres, vereadores e policias, e sou muito discreta para com os meus clientes”.
O sonho de Andressa é um dia morar em Portugal, trabalhar como garota de programa, ganhar dinheiro, e a partir daí, deixar a profissão de vender o corpo por dinheiro. Diz-se destemida da vida, e que temos que arriscar. Quanto à morte, para ela, um dia todos vamos morrer. “Não tenho medo de nada, a vida é assim e, se nascemos, um dia temos que morrer”.

A noite cai e o dia nasce

Sob o olhar de Iracema, pessoas fazem do calçadão à beira mar o seu local de lazer. A “feirinha” como é conhecida na cidade de fortaleza, faz o complemento do comércio para os turistas e nativos.
Desce a lua, sobe o sol. A Praia de todos, das prostitutas - de Sandra Capitu, Andréia Miranda, Luana Silvia e Andressa -, dos freqüentadores, artistas, turistas, pescadores e acima de tudo da musa de José de Alencar, Iracema, é um dos principais palcos da capital da luz e do humor. A prostituição que compõe aquele ambiente, com a virada da noite se esconde, adormece. Retorna a noite para mais uma vez, aos olhos de Iracema, iniciar o comércio do prazer. E a aldeia vai vivendo das mesmas lendas.


Reportagem feita por Miguel Anderson e Elton Mesquita, que foi inscrita no Concurso Adísia Sá de jornalismo 2010.

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